ABNA Brasil— A carta nº 32 do Nahj al-Balāgha é parte de uma correspondência do Príncipe dos Crentes, Imam Ali (a.s.), dirigida a Mu‘āwiya, na qual Ele descreve o resultado das tentativas deste último de desviar a sociedade muçulmana, bem como o aconselha a evitar tais práticas.
Embora à primeira vista possa parecer estranho que o Imam Ali (a.s.) ofereça conselhos éticos a Mu‘āwiya — especialmente considerando o profundo conhecimento que tinha de seu passado, presente e futuro —, na parte inicial da carta, que não foi incluída no Nahj al-Balāgha, Ele expõe os motivos dessas exortações éticas da seguinte forma:
“Eu te aconselho com base no conhecimento prévio que tenho de ti. Ainda que aquilo que sei a teu respeito venha certamente a se concretizar [e que jamais aceitarás a verdade], que posso eu fazer, se Deus Altíssimo tomou dos sábios o compromisso de cumprir o depósito da responsabilidade e aconselhar tanto o extraviado quanto o guiado?”
Na segunda parte da carta, selecionada por Sayyid al-Raḍī e registrada no Nahj al-Balāgha, o Imam Ali (a.s.) descreve assim os resultados das ações de Mu‘āwiya:
«وَأَرْدَیْتَ جِیلاً مِنَ النَّاسِ کَثِیراً؛ خَدَعْتَهُمْ بِغَیِّکَ، وَ أَلْقَیْتَهُمْ فِی مَوْجِ بَحْرِکَ، تَغْشَاهُمُ الظُّلُمَاتُ، وَ تَتَلاطَمُ بِهِمُ الشُّبُهَاتُ، فَجَازُوا عَنْ وِجْهَتِهِمْ»
Ou seja: Tu lançaste à perdição uma grande geração de pessoas; enganaste-as com teu desvio e as lançaste nas ondas do teu próprio mar (de discórdia e corrupção), de modo que as trevas as envolveram e as ondas das dúvidas as sacudiram violentamente, fazendo com que se afastassem da verdade.
Hoje, as mídias inimigas também recorrem a diferentes artifícios para alcançar objetivos como desviar as pessoas, colocá-las nas “ondas da discórdia”, mergulhá-las nas “trevas da ignorância” e criar e expandir diversos tipos de dúvidas — religiosas, políticas e econômicas — a fim de afastá-las da verdade. Essas tentativas são tão amplas no mundo contemporâneo que sequer é necessário citar exemplos específicos; qualquer pessoa, com uma observação simples, pode encontrar inúmeros casos desse tipo.
O Imam Ali (a.s.) prossegue na carta mencionando um grupo que, embora inicialmente tenha sido atraído por essas dúvidas, trevas e enganos, acabou por encontrar a verdade:
«إِلاَّ مَنْ فَاءَ مِنْ أَهْلِ الْبَصَائِرِ، فَإِنَّهُمْ فَارَقُوکَ بَعْدَ مَعْرِفَتِکَ، وَ هَرَبُوا إِلَی اللهِ مِنْ مُوَازَرَتِکَ»
Ou seja: Exceto aqueles que retornaram dentre os “dotados de discernimento”, pois, depois de te conhecerem verdadeiramente, afastaram-se de ti e fugiram para Deus, recusando-se a cooperar contigo.
Essas pessoas são qualificadas pelo Imam Ali (a.s.) como «مِنْ أَهْلِ الْبَصَائِرِ», isto é, pessoas de visão e discernimento.
No Sermão 55 do Nahj al-Balāgha, proferido antes da Batalha de Ṣiffīn, o Imam Ali (a.s.) declara que sua hesitação inicial em iniciar a guerra se devia à esperança de que alguns indivíduos alcançassem clareza espiritual. Alguns comentaristas mencionam nomes como o primo de ‘Amr ibn al-‘Āṣ, ‘Abdullāh ibn ‘Umar al-‘Ansī e o sobrinho de Sharḥabīl entre aqueles que, embora integrassem o exército de Mu‘āwiya, acabaram por se unir ao Imam Ali (a.s.) em Ṣiffīn.
Da mesma forma, nos dias atuais, muitas pessoas e grupos que outrora, sob influência das mídias inimigas, se opunham a temas como a religião, o xiismo, a causa palestina ou a Frente da Resistência, ao conhecerem melhor os fundamentos religiosos e analisarem com mais profundidade as questões políticas, encontraram “o caminho da verdade” e passaram a apoiar o direito e a justiça. Um pequeno exemplo disso pode ser visto na expansão das crenças religiosas em países europeus ou nas manifestações de dezenas de milhares de cidadãos ocidentais em defesa do povo palestino oprimido.
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